quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Morte da Inocência

Era uma vez uma menina linda, de cabelos dourados e cacheados chamada Inocência. Seus olhos eram do mais puro e brilhante azul, e sua pele era alva como a lua. Suas bochechas eram ligeiramente rosadas e levemente redondas. Não era alta para chamar a atenção; mas também não era baixa a ponto de não ser notada.
Assim como todo e qualquer esteriótipo que caracteriza uma personalidade, seu jeito de ser tinha suas vantagens e desvantagens: Inocência era pura e verdadeira, mas, ao mesmo tempo, ingênua. Todos percebiam sua sinceridade, e por isso mesmo, aproveitavam-se de sua extrema bondade.
Com o passar do tempo, Inocência cresceu, assim como suas virtudes. Enquanto crescia, era cada vez mais rara a presença de pessoas como ela. Suas virtudes começaram a ser exclusivamente suas, o que começou a gerar um pensamento intrigante: se ninguém mais era inocente, por que Inocência ainda era? Por que ela seria tola a ponto de possuir uma virtude em que ninguém mais acreditava? Porque era o que ela acreditava, apenas e exclusivamente por isso.
Na verdade, o problema era que as pessoas começaram a sentir inveja de sua pureza, e quiseram disfarçar-se de Inocência para conseguir o que queriam. A situação chegou a tal ponto que todos eram a Inocência, e ao mesmo tempo, não eram.
Como todos podiam ser Inocência? Inocência só havia uma, e ponto final. Suas virtudes passaram a não valer mais nada, e a partir de então, o fingimento passou a ser encarado como natural. Ou seja: quem fingia ser Inocência, sabia que não seria acreditado. Era uma espécie de teatro, em que o ator tem que representar para passar uma verdade que o telespectador aplaude se for bem feito, mas sabe que é mentira. Quem "se dá bem" é quem finge bem, e não quem é de verdade.
Vendo que ninguém acreditava mais nela, Inocência acabou com a própria vida, afogando-se num mar de mentiras sufocante. Ela deixou alguns filhos espalhados pelo mundo, que, misturando-se na vasta hipocrisia dominante, não conseguem mais se distinguir deles. Na teoria, todo mundo é filho da Inocência, assim como todos os presos de um presídio não cometeram crime algum.
Um dos filhos da Inocência, um dia, falou para um amigo de suas origens. O amigo respondeu:
- Inocência? Isso não é uma lenda?
Seus filhos, baseados em sua história, também morreram cedo, deprimidos, deixando cada vez menos filhos. Raridades preciosas que, infelizmente, foram cobertos com a fumaça da mentira. Espera-se apenas que essa fumaça fique apenas por fora e não atinja suas entranhas, ou o mundo estará realmente perdido.

4 comentários:

  1. parabens pelo blog,bons textos parabens!

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  2. bem interessante viu, a forma de vc abordar a inocência e criticar a sociedade atual...
    mas eu acho que iñocência não é sinônimo de ingenuidade e de ver bondade em tudo, pra mim isso é ser besta!
    eu viso meu lado, desconfio de tudo e de todos e mesmo assim me considero uma pessoa inocente porque não passo por cima das pessoas para conseguir atingir mais objetivos.!
    parabéns pelo blog.!


    http://diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com/
    sigo quem me segue e retribuo comentários.!

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  3. "Era uma espécie de teatro, em que o ator tem que representar"

    A vida é um grande teatro, onde representamos todos os dias, o papel que a sociedade espera.

    Caso contrário ou é o hospício ou é a prisão!

    Belo texto!

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  4. Eu sei que inocência não é sinônimo de ingenuidade, mas escrevi o texto baseado em meus sentimentos, já que me considero um pouco inocente e (muito) ingênua. Tanto que às vezes me dá raiva de mim mesma =/

    No entanto, quando vamos descrever o que sentimos, somos ou pensamos, sempre acabamos exagerando ;x

    Obrigada pelo seu comentário e aos outros também!

    Um beijo!

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